Foi o poeta Fernando Pessoa quem disse que gostava da idéia do tempo ser cortado em fatias, para que pudéssemos sempre recomeçar. E é assim que temos pequenas e grandes fatias do tempo e Deus fez com que fosse assim, desde o princípio.
No entanto, o ano é sempre essa fatia mais saliente onde temos uma percepção longa o suficiente para avaliar se estamos ou não trilhando o caminho certo. Os anos são medidas completas em si mesmas, pois contém as quatro estações e nos dão a oportunidade de testar nossas reações e nossa resistência a todas elas.
Assim, o ano velho nos leva obrigatoriamente a uma reflexão séria sobre a própria vida e o novo ano nos coage moralmente a buscar acertar as coisas que ficaram fora de lugar. Mas a questão é: Até que ponto esse confronto nos leva a mudanças expressivas?
A maioria de nós, nesta época, apesar da consciência da necessidade de mudar muitas coisas, tem uma atitude meramente emocional, que desvanece assim que as coisas retornam à normalidade. Em minha própria experiência reconheço que as mudanças são muito raras e que precisamos algo bem mais profundo do que um mero apelo emocional para que elas de fato aconteçam.
Li há poucos dias no livro “As Chaves da Sabedoria”, de Mike Murdock, que nós somente conseguimos mudar aquilo que odiamos. Por achar tal colocação um tanto exagerada, me detive a refletir sobre ela e compreendi então a gravidade da nossa situação. Há em nós uma preguiça enraizada tão profundamente que a maioria de nossas mudanças são meras escaramuças; pequenas tréguas que damos aos defeitos do nosso caráter, até que as circunstâncias mudem e então voltamos a ser aquilo que sempre fomos.
Assim a pessoa irada se contém, mas apenas por algum tempo; a pessoa desanimada decide ser mais otimista, mas apenas por algum tempo; a pessoa maledicente procura dominar sua língua, mas apenas por algum tempo; a pessoa displicente procura ser mais atenta, mas apenas por algum tempo. Assim também o adúltero, o alcoólatra, o fumante, o desonesto e todos quantos por algum motivo sabem que andam fora dos trilhos. Por que é tão difícil assumir mudanças definitivas?
Há um mecanismo estranho dentro de nós, uma mentira deslavada que diz que se formos um pouco espertos podemos ser de tudo um pouco sem perder o melhor das coisas. Mas será que podemos provar essa mentira na experiência real da vida? Não! Ainda que contra a nossa vontade, precisamos decidir o que iremos ser a fim de possuir aquilo que desejamos ter. Ninguém foge dessa lei, porque algumas coisas obrigatoriamente excluem outras.
O adúltero terá que saber que um dia perderá sua família; O desonesto terá que saber que um dia perderá sua credibilidade; o procrastinador terá que saber que um dia suas oportunidades cessarão; o maledicente terá que saber que um dia, na hora mais inoportuna, dará com a língua nos dentes; o displicente terá que saber que um dia sua sorte não mais o ajudará; o mentiroso terá que saber que um dia toda verdade virá à luz.
Por isso, se de fato não odiamos aquilo que nos atrapalha, ao ponto de lhe dar um basta definitivo, sempre nos veremos às voltas com os mesmos problemas. E, ainda que ano após ano, venhamos a repetir os mesmos propósitos, jamais nos veremos livres do círculo vicioso do mal em nossas vidas.
Prezado leitor: Você sabe o que é arrependimento? É dar razão a Deus. Você sabe o que é conversão? É mudança de direção. No fundo é disso que a grande maioria foge, pois intuitivamente sabe que se assim o fizer, já não poderá reter tudo aquilo que ama. Porém essa é a hora de render-se ao óbvio e considerar o ganho!