Santa Cruz do Sul foi uma cidade que marcou muito a minha vida. Como Oficial de Justiça trabalhei naquela comarca de julho de 1982 a janeiro de l985, quando pedi remoção para Gramado, onde também cursei o Seminário Teológico que me permitiu a formação pastoral . Depois retornei para lá em 1990, permanecendo até 1993, quando pedi minha remoção para a comarca de Lajeado.
Na semana passada fui com minha esposa para lá a fim de fazer seu passaporte e aproveitei para dar uma passada no Fórum, o que há muitos anos não fazia. Pra começar, sua sede já não está mais no prédio histórico da rua Tenente Coronel Brito 333. O novo prédio é moderno, imponente, com rampa de acesso, elevador e nem cheguei a contar o número de andares.
Corredores amplos, salas fechadas por causa dos aparelhos de ar condicionado, setas por todos os lados indicando os lugares que noutros tempos seriam óbvios. Óbvios porque os corredores eram estreitos, as salas eram apertadas, as portas estavam abertas e as pessoas eram visíveis: juízes, promotores, escrivães, oficiais de justiça, funcionários, advogados, réus, vítimas, testemunhas, de repente se viam compartilhando os mesmos espaços, roçando os corpos, cruzando as vozes, misturando odores, olhando nos olhos. Havia uma troca, uma ambiente quente, vivo, um quadro palpável de uma sociedade heterogênea que ali se encontrava para se confrontar, se entender ou se julgar. Que quadros diferentes! Confesso que eu preferia o antigo.
Ah! Havia, sim, uma recepcionista, abrigada por uma espessa redoma de vidro. Eu preferi seguir as placas. Mas, chegando na Sala dos Oficiais de Justiça encontrei apenas outra placa: “Plantão em serviço externo”. Pensei: Será que não vou encontrar ninguém? Seguindo pelo corredor, um rosto conhecido, o Contador e Distribuidor João Ernani. Nos abraçamos e depois das saudações e perguntas de praxe, ele confirma minhas suspeitas: “ -Nada aqui é como naqueles tempos. Entro às 7:00 horas da manhã, saio às 7:00 horas da noite e praticamente não vejo ninguém.”
Então, como é lógico, comecei a perguntar: - E o Acimar? E o Aroldo? E o Haroldo? E a Verena? E a Lia Marta? E o Léo? E o Erni? E o Albano? E a Teresinha? E o Adevosir? E a Gelma? Bem, de toda aquela gente, somente a Lílian ainda está na ativa, mas não se encontrava no local.
Foi bom encontrar o João Ernani. Lembramos de pessoas e de episódios. Ele me falou sobre a vida de alguns colegas com quem ainda mantém algum contato, mas saí de lá com uma sensação estranha, desejando quase não ter ido.
Depois, a constatação óbvia: A vida passa e as coisas mudam. E, uma pergunta um tanto aterrorizante: O que sobrou de tudo aquilo? O que ficou de mim no coração daquelas pessoas? Ainda lembrarão de mim? E se lembram, que pensamentos e sentimentos minha lembrança provocará nelas? São perguntas fortes essas, não são?
Prezado leitor: Há coisas que não gostaríamos que mudassem, mas são inevitáveis e estão absolutamente fora do nosso controle. Um dia, fatalmente a maioria das coisas cairá no esquecimento e, muitas delas ainda que trazidas à memória, não passarão de meras reminiscências. Mas pergunto: É possível agir de tal maneira, que não obstante o passar do tempo e o mudar das coisas, nossas lembranças sejam carregadas de um potencial de vida sempre pronto para irromper na mente daqueles que passaram por nós? Sim! E, quanto a mim, foi isso que me trouxe consolo.
É bem provável que todos aqueles antigos colegas, quando lembrarem daqueles tempos terão as mesmas lembranças que eu tenho, mas ao pensarem em mim irão inevitavelmente lembrar que eu era “ O Oficial de Justiça crente”; irão lembrar que eu lhes falava de Jesus. Qual é a diferença? A diferença é que eu terei passado, mas Jesus lhes estará acessível. O que mais eu poderia desejar?
JESUS, A OPÇÃO DA VIDA!
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